quarta-feira, 25 de maio de 2016

Patrul Rinpoche (1808-1887) CONSELHOS PARA MIM MESMO



Patrul Rinpoche (1808-1887) 

Conselhos de mim para mim mesmo  

Vajrasattva, única deidade, Mestre, 
 Tu sentas-te num trono de lótus, de luz branca de lua cheia, 
 No desabrochar de cem pétalas, pleno de juventude. 

 Pensa em mim, Vajrasattva, 
 Tu que te manténs equânime dentro do universo manifestado; 
 Isto é Mahamudra, benção do pleno vazio. 

 Ouve lá, oh Patrul de mau carma, 
 Praticante da distracção. 

 Há eras que tu estás 
 Apanhado, entranhado e iludido pelas aparências. 
 Estás consciente disso? Estás? 

 Neste preciso momento, em que estás 
 Debaixo da magia da percepção errónea 
 Tens que ter atenção. 
 Não te deixes levar por esta vida vazia e falsa. 

 A tua mente devaneia 
 Tentando levar a cabo projectos sem utilidade: 
 É uma perda de tempo! Desiste! 

 Pensando sobre centenas de planos que queres executar, 
 Sem nunca ter tempo de os acabar, 
 Só sobrecarregas a tua mente. 

 Estás completamente distraído 
 Por todos esses projectos, que nunca mais acabam, 
 Mas que continuam a aparecer, como correntes de água. 

 Não sejas tolo, ao menos por uma vez: 
 Senta-te, simplesmente. 

 Ouvindo os ensinamentos, e tu já ouviste centenas deles, 
 Mas não tendo atingido o sentido profundo de nenhum deles, 
 Qual é o sentido de ouvir mais? 

 Reflectindo sobre os ensinamentos, mesmo tendo-os escutado, 
 Se eles não te vêm à mente quando são precisos, 
 Qual o sentido de mais reflexão? 
 Nenhum. 

 Meditando sobre o ensinamento, 
 Se a tua prática de meditação ainda não curou 
 Os estados obscuros da mente: 
 Esquece-a! 

 Já somaste quantos mantras fizeste 
 Sem ter conseguido a visualização do kyerim? 
 Podes ter conseguido as formas de deidades belas e claras 
 Mas não estás a pôr fim ao sujeito e ao objecto. 
 Podes catalogar o que aparece como sendo espíritos maus e fantasmas, 
 Mas não estás a treinar o fluxo da tua própria mente. 

 Sobre as tuas óptimas quatro sessões de prática de sadhana, 
 Tão meticulosamente arranjadas: 
 Esquece-as! 

 Quando estás com boa disposição, 
 A tua prática parece ter imensa claridade; 
 Mas não te podes relaxar nela. 
 Quando estás deprimido, 
 A tua prática é bastante estável, 
 Mas não tem qualquer brilho. 
 Quanto à compreensão, 
 Tentas forçar-te a um estado semelhante a rigpa, 
 Como se estivesses a atirar a um alvo! 

 Quando essas posições de yoga e práticas mantém a 
 tua mente estável, 
 Só à custa de a manterem estrangulada: 
 Esquece-as! 

 Dar altas conferências 
 Não faz nenhum bem ao fluxo da tua mente. 
 O caminho da razão analítica é preciso e acutilante: 
 Mas é mais desilusão, caca imprestável. 
 As instruções orais podem ser muito profundas, 
 Mas não se tu não as puseres em prática. 

 Ler e reler os textos do dharma 
 Só serve para ocupar a tua mente e fazer arder os olhos: 
 Esquece-os! 

 Bates o teu pequeno tambor damaru - ting, ting - 
 E a tua audiência fica deliciada a ouvi-lo. 
 Recitas palavras acerca de oferecer o teu corpo, 
 Mas ainda estás ternamente agarrado a ele. 
 Bates os teus pequenos cimbales -cling, cling - 
 Sem ter o propósito último na tua mente. 

 A todo este equipamento de prática do dharma, 
 Que parece tão atraente: 
 Esquece-o! 

 Neste momento, os estudantes estão todos a estudar arduamente, 
 Mas no fim não vão conseguir manter o ensinamento... 

 Hoje, parecem ter apanhado a ideia, 
 Mas, mais tarde, nem um rasto dela fica. 
 Mesmo se um deles conseguir apreender um pouco, 
 Raramente aplica o apreendido à sua própria conduta. 

 A todas estas elegantes disciplinas do dharma: 
 Esquece-as! 

 Este ano ele realmente preocupa-se contigo, 
 Para o ano já não será assim. 
 A princípio parece modesto; 
 Depois exalta-se e fica pomposo. 
 Quanto mais to o apaparicas e cuidas dele, 
 Mais ele se distancia de ti. 

 A estes queridos amigos 
 Que mostram faces tão sorridentes ao princípio: 
 Esquece-os! 

 O sorriso dela parece tão cheio de alegria, 
 Mas quem sabe se será realmente assim? 
 Por um momento de puro prazer, 
 São nove meses de dor mental. 
 Pode ser bom durante um mês, 
 Mas, mais cedo ou mais tarde, vai haver sarilho. 

 Às pessoas a chatearem-te, à tua mente embrulhada, 
 À senhora tua amiga: 
 Esquece-os! 

 Essas reuniões, sem fim, de conversa 
 São só apego e aversão: 
 É mais caca, sem utilidade. 
 Na altura parece um entretimento maravilhoso, 
 Mas, na realidade, só se está a espalhar histórias sobre os erros de outras pessoas. 
 A tua audiência parece estar a escutar polidamente, 
 Mas depois vão ficando embaraçados por ti. 

 Fala sem utilidade, que só te faz ficar com sede: 
 Esquece-a! 

 Dar lições sobre textos de meditação 
 Sem tu próprio teres ganho 
 Experiência pela prática, 
 É como recitar um manual de dança 
 E pensar que é o mesmo que, realmente, dançar. 

 As pessoas podem escutar-te com devoção, 
 Mas não é o mesmo que a coisa real. 

 Mais tarde ou mais cedo, quando as tuas próprias acções 
 Contradisserem os ensinamentos, vais sentir-te envergonhado. 

 Pronunciar só as palavras, 
 Dar explicações do dharma que soam tão eloquentes: 
 Esquece! 

 Quando não tens um texto a que te agarrar, anseias por ele; 
 Quando, finalmente, o obténs, mal olhas para ele... 

 Mesmo que o número de páginas seja pequeno, 
 É-te difícil arranjar tempo para as copiar todas. 
 Mesmo que tu copiasses todos os textos de dharma que existem, 
 Não ficarias satisfeito. 

 Copiar textos é uma perda de tempo 
 (a menos que recebas pagamento por isso...): 
 Portanto, esquece! 

 Hoje estão felizes; 
 Amanhã, furiosas. 
 Com os seus momentos altos e baixos, 
 As pessoas nunca estão satisfeitas. 
 Mesmo que sejam simpáticas, 
 Podem não te acorrer quando tu necessitas delas, 
 Desapontando-te ainda mais. 

 A toda essa polidez, a cultivar 
 Comportamento cortês: 
 Esquece-a! 

 Trabalho mundano e religioso 
 Pertence à esfera dos polidos. 
 Patrul, meu amigo, não é para ti! 

 Nunca repararam no que acontece sempre? 
 A um velho boi, depois de todo o trabalho de o pedir emprestado para ele prestar os seus serviços, 
 Parece não ter restado nenhum desejo, 
 Excepto para adormecer. 

 Sê também assim - sem desejo. 

 Somente dorme, come, mija e caga. 
 Não há mais nada que se tenha que fazer nesta vida. 

 Não te envolvas noutras coisas: 
 Elas não são o objectivo. 

 Mantêm um perfil comedido, 
 Dorme. 

 Neste triplo universo 
 Quando tu és mais modesto que a tua companhia 
 Deves tomar o assento mais baixo. 

 Se acontecer que tu sejas aquele que é superior, 
 Não fiques arrogante. 

 Não existe nenhuma necessidade absoluta de ter amigos íntimos; 
 Ficas melhor mantendo-te contigo mesmo. 

 Se não tiveres nenhuma obrigação mundana ou religiosa, 
 Não fiques a desejar obter uma! 

 Se deixares ir tudo, 
 Tudo, tudo... 

 Esse é o verdadeiro objectivo! 



Estes conselhos foram escritos pelo praticante Trime Lodro (Patrul Rinpoche) para o seu amigo íntimo Ahu Shri (Patrul Rinpoche), especificamente talhados para as suas capacidades. 

 Estes conselhos devem ser postos em prática. 

 Mesmo que tu não saibas praticar, deixa ir tudo - é o que eu realmente quero dizer. Mesmo que não sejas capaz de ser bem sucedido na tua prática do dharma, não fiques triste nem zangado. 

 Possa isto ser virtuoso. 

Patrul Rinpoche (1808 - 1887) foi o mestre viajante de Dzogchen do Tibete Oriental do virar do século, amado pelo povo. Ficou conhecido como o vagabundo iluminado. 

 Tradução de Constance Wilkinson (para o inglês). 

 Muitas questões acerca do texto foram clarificadas pelas extremamente simpáticas explicações do Chogyal Namkhai Norbu Rinpoche, durante a sua estadia em Nova Iorque, e de acordo com as explicações detalhadas de Khenpo, Rigdzin Dorje do Nyingmapa Shedra, Bansbari, Kathmandu, Nepal. 

 Obrigado a Matthieu Ricard do Shechen Tennyi Dargyeling, e a Anne Burchardi do Marpa Institute of Translation pelos seus conselhos de modo a tornar esta tradução fiel quer à letra quer ao espírito do original Tibetano. 

 Todos os erros e interpretações incorrectas são do tradutor. Possa este poema, apesar das limitações da sua tradução, servir para benefício dos seres. 

 Bem hajam todos. 


 Vajrasattva 

Sealevel | SiteCare™   2007-06-30  




quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Prática do Grande Compassivo





Prática do Grande Compassivo 
de seis sílabas 
O método de realização que conduz as bênçãos 
Por Tsultrim Zangpô 
Cujo contínuo mental é uno com o iogue 
Thangtong Gyalpo

Prática do Grande Compassivo 
de seis sílabas 
O método de realização que conduz as bênçãos 
  
1. 
Eu me prosterno ao grande Senhor da Compaixão. 
OM MANI PEME HUNG (1) 
Eu tomo refúgio no protetor Chenrezig 
Pela salvação dos seis tipos de mães transmigradoras(2)  eu gero a mente de iluminação 
e medito no amor, compaixão, alegria e equanimidade 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
[Repita a prática acima três vezes até aqui] 
2. 
De dentro do mágico aparecimento da clara esfera da concentração 
aparece a nuvem de oferecimentos de Samantabhadra(3) 
invade a esfera do espaço sem interrupção 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
3. 
Da vacuidade de todos os fenômenos 
todos os sítios se tornam perfeitamente limpos 
como a celestial mansão do espaço da montanha do Potala 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
 4. 
No centro eu apareço como Chenrezig 
O corpo é branco e claro, emite cem mil raios de luz 
com as marcas e signos, pacífico, sorridente, tem uma expressão encantadora 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
5. 
A face de Chenrezig é o Dharmakaya 
uma única "thigle" se enrola para cima(4) 
Seus olhos - o método e a sabedoria - estão apertados de compaixão e olham 
Suas mãos - os quatro incomensuráveis - são macias e bondosas 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
6. 
Seus dois braços-raiz estão no coração no mudra da prosternação 
o outro braço direito segura um rosário de cristal 
o outro braço esquerdo segura um lótus branco 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
7. 
Parte de seus cabelos azuis-escuros estão amarrados em coque na coroa da cabeça 
e outra parte cai em tranças 
Sua coroa está marcada com uma flamejante jóia 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
8. 
Ele está adornado com um diadema, vestes e estolas de diferentes sedas 
e todos os ornamentos de variadas jóias 
uma pele de antílope cobre seu ombro esquerdo 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
9. 
Em cada poro de seu corpo se encontram 
inúmeros campos e reinos 
que são as moradas dos Budas e Bodissátuas 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
10. 
Sua fala concentra todos os sons dos mundos internos e externos e de seus habitantes 
A bênção do mantra de seis sílabas 
Libera com ver-se, ouvir-se, lembrar-se e tocá-lo 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
11. 
Sua mente, enquanto imutável em vacuidade 
através de sua radiação, de sua inconcebível grande compaixão 
considera todos os seis tipos de mães transmigradoras como suas 
filhas 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
12. 
Ele está sentado sobre um lótus branco e um assento de lua cheia 
com suas pernas na postura vajra 
invade todas as direções o brilho de sua aparência 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
13. 
Seus três lugares(5) estão marcados com o branco OM, o vermelho AH e o azul HUNG, letras que brilham claramente 
significando que é completo com a essência dos três vajras 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
14. 
Desde o ponto vital de seu radiante coração emanam raios 
através dos quais os seres de sabedoria descem como chuva 
e se tornam inseparáveis do samaya mudra 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
15. 
Outra vez raios se irradiam e invocam as deidades da transmissão de poder 
e esta transmissão se realiza: - as obscuridades são purificadas; as qualidades se tornam plenas 
o magnífico Buddha da Ilimitável Radiação(6)  adorna a minha cabeça 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
16. 
Ele em geral ama a todos os seis tipos de seres transmigrantes como seus filhos 
mas especialmente no que concerne aos transmigrantes da Terra das Neves 
Para o sábio Chenrezig eu me prosterno 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
17. 
Ofereço um oceano de incontaminadas nuvens de oferecimento 
Cuja causa é  esta apresentação real 
e suas condições são as manifestações derivadas da concentração 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
18. 
Ele possui o supremo método e sabedoria 
e inconcebíveis qualidades de magnificente sabedoria 
Respeitosamente rezo ao sábio Chenrezig 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
19. 
No seu coração está um lótus branco de seis pétalas; no seu centro a sílaba HRI(7) 
Todas as pétalas estão marcadas com as seis sílabas 
o mantra ressoa com seu som próprio e emite raios 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
20. 
Movidos pelas condições do recitativo 
a luz da sílaba HRI faz oferecimentos aos seres árias(8) 
cujas bênçãos retornam e são absorvidas em mim. 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (500x) 
21. 
O branco OM se dirige ao reinos dos deuses 
a mente orgulhosa e o sofrimento de transmigração e queda é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria da Equalização - torna-se manifesto 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
22. 
O verde MA se dirige ao reino dos semi-deuses 
a mente invejosa e o sofrimento da luta é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria Realizada - torna-se manifesta 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
23. 
O amarelo NI se dirige ao reino dos humanos 
a mente duvidosa e o sofrimento de estar ocupado e pobre é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria Auto-nascida - torna-se manifesta 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
24. 
O azul PÊ se dirige ao reino animal 
a mente fechada e o sofrimento da estupidez é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria da Esfera do Dharma - torna-se manifesta 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
25. 
O vermelho ME se dirige ao reino dos espíritos famintos 
a mente desejosa e o sofrimento de fome e sede é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria da Discriminação - torna-se manifesta 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
26. 
O azul-escuro HUNG se dirige ao reino dos infernos 
a mente do ódio e o sofrimento do calor e do frio é purificado 
seu verdadeiro sentido - a Sabedoria que é como Espelho - torna-se manifesta 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (100x) 
27. 
As formas e aparência dos três reinos são Chenrezig 
todos os sons manifestos são o som de seu próprio mantra 
o apego e o apegado - memória e conceitos - são da natureza da clara luz 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (1000x) 
(Depois de recitar o mantra no mínimo mil vezes, recite o mantra de cem sílabas: Om padma sotto samaya...(9)  Depois recite três vezes as vogais e consoantes para a bênção da fala,(10) faça oferecimentos e reze a Chenrezig:) 
28. 
Oh Cherenzig, protetor das montanhas nevadas 
por causa da minha prece pense nos seus filhos com amor 
e conceda suas bênçãos no nosso contínuo mental 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
29. 
Todas as aparências manifestas se dissolvem na esfera da clara luz 
sua base é a incessante mente primordial - mahamudra 
o caminho é a não-atividade contemplando a verdadeira face do Árya 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
30. 
Do espaço da vacuidade que tudo compõe 
outra vez o corpo do Árya se manifesta como o caminho 
atraído pela ação de amor e compaixão pela salvação dos transmigrantes 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
31. 
Na base desta meditação e recitativo 
e pela força da virtude acumulada nos três tempos 
que eu recupere os seis tipos de mães transmigradoras para fora do abismo do samsara 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
32. 
Logo que a visão desta vida for deixada para trás 
rapidamente nascido no Paraíso da Grande Bênção do Oeste 
que eu rápido atinja o estado de iluminação 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
33. 
Pela bênção do protetor Chenrezig 
a real essência dos Três Sublimes Refúgios 
que todas as direções e tempos sejam felizes e prósperos 
Rezo para a grande deidade compassiva 
OM MANI PEME HUNG (21x) 
  
(Desta forma medite no sentido desses versos. Entre eles recite o mantra de seis sílabas cem vezes ou mais, tomado de clara concentração. Se realizar tal prática diariamente  sem interrupção irá indubitavelmente realizar o propósito e logo que aconteça a morte tomará renascimento no Paraíso da Grande Bênção do Oeste. Essa prática acima nasceu do praticante secreto  e supremo realizador Tsultrim Zangpô, cujo contínuo mental é um com o iogue Thangtong Gyalpo, em Guge (acima de Ngari). Ainda que ele permanecesse centro e trinta anos no reino humano seu corpo não se tornava envelhecido nem decadente mas permanecia em condições perfeitas e finalmente se dissolveu numa grande massa de luz). 
Traduzido por Gelongma Jampa Chokyi, 1988. 
Publicado por Lawudo Gompa, 1989. 
[Trad. e notas em português por R. Samuel, 1999]. 
Esta tradução é mais uma realização de SAKYA KUN KHIAB CHÖ LING. Que pela realização desses méritos nosso Centro prospere na prática e difusão do Dharma. 
NOTAS: 
l- OM MANI PADMA HUNG. 
2- Os seis reinos do samsara: deuses; semi-deuses;  humanos; animais; espíritos famintos; infernos. 
3- Bodissatua famoso por seus oferecimentos; também Buddha. 
4- Espécie de "gota" na testa. 
5- Testa, garganta e coração. 
6- Amitabha. 
7- Pronuncia-se "Shri". 
8- Iluminados. 
9- OM VAJRASATTVA SAMAYA MANUPALAYÀ VAJRASATVA TVENOPA TISTHA DRIDHO ME BHAVA SUTOSYO ME BHAVA ANURAKTÔ ME BHAVÀ SUPOSYO ME BHAVÀ SARVÀ 
SIDDHIM ME PRAYACCHÁ SARVA KARMÀ SUCA ME CITTAM SREYAM KURU HUM HA HA HA HA HOH BHAGAVAN SARVÀ TATHAGATA VAJRÂ MA ME MUNÇA VAJRI BHAVA MAHASAMAYASATTVA AH (Vajra mantra da Tradição Sakya, um pouco diferente das outras tradições). 
10- São as vogais e consoantes da língua tibetana, cujos sons são impossíveis de transliterar aqui.
  

sexta-feira, 13 de março de 2015

INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO

  

INSTRUÇÕES BÁSICAS PARA O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO

(SATIPATTHANA VIPASSANÃ)



Mahasi Sayadaw
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PREFÁCIO
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O “Guia Prático do Curso de Meditação Vipassana” (em dois volumes) é um tratado escrito por Mahasi Sayadaw, Aggamahapandita Bhaddanta Sobhana, Maha Thera. O primeiro volume contém uma explicação dos princípios fundamentais para a prática da Meditação Vipassana, de acordo com o Satipatthana Sutta na sua forma tradicional. O segundo volume trata do aspecto prático da Meditação Vipassana. Nele estão contidas todas as lições sobre os exercícios que devem ser feitos durante o treinamento, como a experiência pessoal e adquirida e como o conhecimento da Vipassana e desenvolvido gradualmente. Há também una descrição completa dos vários graus do conhecimento de Vipassana através da comparação da experiência ganha durante a prática e sobre este ponto, muitas autoridades no assunto são citadas.
A presente tradução se refere exclusi vamente as primeiras catorze páginas do volume segundo, que contém somente um resumo das instruções sobre a prática dos exercícios básicos. Este trabalho foi feito para suprir a necessidade dos praticantes de outras nacionalidades, os quais, de tempos em tempos, vinham ao Centro de Meditação Mahasi Satipatthana Vipassana, em Thathana Yeuktha, Rangoon, com o propósito de participar do Curso Intensivo de Treinamento da Meditação. Ele é apenas um resumo das lições práticas e será muito útil como informação para os principiantes que participem do Curso, sob orientação, até que os mesmos completem satisfatoriamente o treinamento, ganhando experiência e conhecimento na meditação prática.

U PE THIN
Mahasi Yogi
 

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MÉTODO PARA PRÁTICA DA CONTEMPLAÇÃO
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Os exercícios que devem ser praticados para desenvolver a contemplação e os vários graus da “Introspecção” (Vipassanã Nãna) serão descritos de acordo com a experiência adquirida. Para os principiantes, será usada uma linguagem clara e simples.
 

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ESTADO RESPIRATÓRIO
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Todo quele que desejar sinceramente desenvolver a contemplação e atingir a “Introspecçao” (Vipassanã Nãna) durante a sua vida deve, em primeiro lugar, abandonar todos os pensamentos e ações ligados a vida mundana enquanto durar o treinamento. Deve também observar, estritamente, as regras da disciplina (Sila) previstas para leigos e monges, respectivamente. Estas medidas de purificação do caráter são essenciais como o passo inicial ao desenvolvimento apropriado da contemplação e têm decisiva importância para alcançar a “Introspecçao” (Vipassanã Nãna). O discípulo deve ter plena confiança neste estado de pureza da conduta que o conduzirá até o seu objetivo. Se por acaso, o discípulo falta com respeito a um Nobre (Arya), ou lhe falta com menos prezo, ou malícia, ele deve pessoalmente, ou através do seu Instrutor de Meditação (Kamínatthãna Achariyaj , apresentar o seu pedido de desculpas. Nos “Comentários” é especialmente recomendado que o discípulo deve ficar confiado ao Buda durante o período de treinamento. A vantagem desta ação é que ele não ficará assustado, ou alarmado, caso apareçam visões durante a contemplação. Nos mesmos “Comentários” é
feita menção também à direta orientação, a cargo do Instrutor de Meditação (Kammattahãna Achariya). Pode, este último, falar- lhe francamente sobre o seu trabalho na contemplação e dar-lhe as necessárias diretivas. Tanto pode o discípulo confiar-se a Buda como, ao mesmo tempo, confiar-se ao seu Instrutor. Ele deve esforçar-se para seguir a risca as instruções que recebe. Nirvana (Libertação) é puro e bom. Magga (o Caminho para o Nirvana) também é puro e bom. Este curso intensivo de treinamento da contemplação o conduzirá a Magga Nibbãna (Caminho para o Nirvana, Contemplação e Libertação). O discipulo deve voltar a sua mente para esse grande objetivo, desejando ardentemente que o seu treino seja feito com muito sucesso.
Cursos intensivos de treinamento da Contemplação foram feitos, invariavelmente, por muitos Budas e Ariyas que atingiram o
 Nirvana. É motivo de satisfação para o discípulo ter a. mesma oportunidade de palmilhar o mesmo caminho e participar do mesmo método de treinamento. Com estes pensamentos animadores, o discípulo deve começar por se devotar inteiramente a Buda, analisando profundamente as “Nove Principais Características de Buda”. O discípulo deve dar expansão a toda a sua benevolência, não só para com o seu espírito protetor, como também para com todos os seres vivos em todo o Universo. Se for possível, ele poderá até considerar por um momento a sua condição sempre próxirna da morte e o estado de decomposição que o seu corpo apresentará após a sua morte.

Para começar os exercícios de treinamento, a melhor postura é a de pernas cruzadas. O praticante se sentirá mais confortável, se conservar as pernas suficientemente afastadas para evitar fazer pressão de uma contra a outra. Para os que não estão habituados a sentar no chão e que poderao considerar esta posição um empecilho para a concentração, estes deverão sentar-se da maneira a que estão mais habituados. O praticante deve proceder durante os exercícios da contemplação de acordo com as seguintes instruções:
 
 

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LIÇÕES BÁSICAS PARA OS EXERCÍCIOS DA CONTEMPLAÇÃO
LIÇÃO I - (Começo)
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O praticante deve voltar sua mente para o abdômen. Ele passará a prestar atenção na “subida” e “descida” do seu abdômen. Se estes momentos não forem acentuados, o praticante deverá colocar uma ou as duas mãos sobre o abdômen. Depois de alguns momentes, o movimento provocado com a inspiração e a expiração, para cima e para baixo, respectivamente, torna-se bem perceptível. Então, uma nota mental “subindo” para o movimento para cima, e “descendo”, para o movimento para baixo, deve ser feita cada vez que um destes movimentos se veri­fica. Todo o esforço deve ser feito, para se ter a consciência do momento em que ca da nvimento se efetua.
Poderá parecer à primeira vista que essa espécie de exercício leva somente ao conhecimento da forma do abdômen e não ao
verdadeiro movimento dele para cima. Não se deve ficar entregue a estes pensamentos e sim continuar com firmeza a prática. Para principiante, é este o único método fácil para desenvolver a atenção (Sati) , a concentração da mente (Samãdhi) e a introspeção (Nãna) na contemplação. A medida que a prática avança, a maneira do movimento sem a forma se tornará bem clara. A habilidade para conhecer o processo físico e mental (Nãma-Rupa) , em sucessão, nos seis orgãos sensoriais, só será adquirida quando a contemplação (Vipassanã) estiver completanente desenvolvida. Contudo, para o principiante, cuja atenção (Sati) e a concentração da mente (Samadhi) são ainda fracas, é difícil fixar a sua mente em cada momento que ocorre, sucessivamente; ele pode até pensar que se acha em um impasse, por não poder fixar a sua mente em cada momento, ou ainda, ele pode perder tempo, buscando os objetos da mente. Os movimentos de “subida” e “descida” estão sempre presentes e não há, praticamente, necessidade de olhá-los. E muito fácil para o principiante manter sua mente voltada para estes movimentos. Por tal motivo, esta primeira explicação se constitui no exercício básico durante este treinamento. Mais algumas lições sobre os exercícios a serem executados pelo praticante serão dadas a medida que ele for progredindo. O principiante deve continuar com este exercício do conhecimento dos movimentos de “subida” e “descida” do abdomen, através das notas mentais “subindo” e “descendo”, acompanhando o ritmo de cada movimento, respectivamente. O
principiante não deve pronunciar as palavras  “subindo”, “descendo”; a respiração profunda ou rápida deve ser evitada; se isto for feito, o praticante ficará cansado e não poderá prosseguir com a prática. É muito importante que esta prática seja feita sem alterar a respiração normal e natural.
 
 

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LIÇÃO II
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Durante o exercício da atenção dos movimentos “subindo” — “descendo”, outros momentos mentais, intenções, idéias, imaginações, etc., podem também tornar-se claros entre uma e outra nota mental (“subindo” — “descendo”). Esses momentos devem ser observados, tão logo se verifiquem. A nota mental correspondente a cada um deve ser feita concomitantemente.
ILUSTRAÇÃO

Se o praticante imaginar alguma coisa, a nota mental será “imaginando”; se es tiver pensando em alguma coisa, a nota mental será “pensando”; se estiver refletindo — “refletindo”; se tiver uma intenção — “pretendendo”; se compreender — “coinpreendendo”, e assim por diante. Se por acaso o praticante sentir que a sua mente divaga do objeto da meditação, a nota mental será  “divagando”, se na sua imaginação ele for a algum lugar “indo”; se ele chegar “chegando”; se ele encontrar uma pessoa — “encontrando”; se discutir com ela — “discutindo”; se lhe aparecer a visão de uma imagem, uma luz, uma cor “vendo”. As notas mentais sobre o que ocorre devem ser feitas repetidamente, até que todos estes pensamentos passem. Apôs o desaparecimen­to dos pensamentos o praticante deve vol­tar a praticar o que aprendeu na primeira lição sobre a observação — “subindo” — “descendo”, regularniente, sem interrupção. Enquanto estiver assim ocupado, se tiver a intenção de engolir a saliva, deverá ser feita a nota mental “pretendendo”; no ato de engolir “engolindo”; se tiver a intenção de cuspir “pretendendo”; quando rea lizar o ato de cuspir “cuspindo”. Em seguida, deve voltar ao exercício da observação do abdomen — “subindo” — “descando”;se tiver a intenção de inclinar o pescoço “pretendendo”; no ato de inclinar “inclinando”; se tiver a intenção de colocar o pescoço erecto — “pretendendo”; ao realizar a ação — “colocando”. As ações de inclinar e colocar o pescoço na posição erecta devem ser executadas bem lentamente. Depois destas ações voltar aos exercícios, da observação do abdômen “subindo” — “descendo”.
 
 

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LIÇÃO III
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À medida que o discípulo estiver praticando a contemplação em determinada postura (sentado ou deitado), por um longo período de tempo, ele poderá ter uma sensação de cansaço ou de desconforto e endurecimento das pernas. Nestes casos, ele deve voltar a sua atenção para os lugares onde se manifestam as sensações mencionadas na contemplação com as notas — “cansado” — “cansado” — “dormência” — “dormência” de uma maneira ritmada — nem muito devagar nem muito depressa. Geralmente estas sensações vão enfraquecendo até desaparecer completamente. Também pode acontecer que estas mesmas sensações aumentem a tal ponto que se tornem insuportáveis. Nestes casos, se o praticante resolver mudar de posição, ele tem que fazer primeiro a nota mental “pretendendo”, “pretendendo”, e, logo em seguida, poderá começar a mudar a posição contemplando cada detalhe dos movimentos na sua respectiva ordem.
ILUSTRAÇÃO

Se houver a intenção de levantar a mão ou a perna — “pretendendo” — “pretendendo”; durante o ato de levantar “levantando” — “levantando”; se houver necessidade de espreguiçar-se “espreguiçando” — “espreguiçando”; se tiver necessidade de se inclinar — “inclinando” — “inclinando”; se tiver necessidade de largar alguma coisa — “largando” — “largando”; se tocar alguma coisa — “tocando” — “tocando”. Todas estas ações devem ser praticadas lentamente. Tão logo o praticante se encontre na nova posição, ele deve reiniciar a sua contemplação — “subindo” — “descendo”. Se, porventura, ele sentir qualquer incômodo nesta nova posição podará proceder de igual modo.

Se o praticante sentir uma coceira em qualquer parte do corpo, ele deverá fazer urna nota mental ao mesmo tempo que focalizar a sua mente no lugar correspondente,dizendo: “coçando” — “coçando”, de uma maneira regular, nem muito devagar, nem muito depressa. Se a sensação desaparecer, o praticante deverá voltar à observação dos movimentos do abdômen — “subindo” — “descendo”. Contudo, se a coceira se tornar insuportável e ele pretender coçar-se, a nota mental será — “pretendendo” — “pretendendo”, e, em seguida, levantar a mão com a nota “levantando” — “levantando”, e quando a mão tocar o lugar “tocando” — “tocando”, e então, ao se coçar, a nota será “coçando” — “coçando”; ao chegar quase ao fim e pretender terminar de coçar-se, a nota será “pretendendo” — “pretendendo”, em seguida, ao retirar lentamente a sua mão, a nota será  — “terminando” — “terminando” e quando ele recolocar a sua mão no seu primitivo lugar a nota será —  “tocando” — “tocando”. Finalmente, o praticante voltara ao seu exercício inicial — “subindo” — “descendo”.

Se o praticante sentir outras espécies de sensações dolorosas, ele deverá manter a sua atenção voltada para elas, fazendo as notas — “doendo” — “doendo” — “sofrendo” — “sofrendo”, “picando” — “apertando” — “apertando”, “cansado” — “cansado”, “tonteira” — “tonteira”. Estas notas mentais devem ser feitas de maneira regular e ritmada. O praticante poderá sentir que as sensações desapareceram, ou então ele notará que as sensações dolorosas estarão aumentando, mas ele não deverá ficar impressionado com este fato, e deverá continuar com a contemplação resolutamente. Se o praticante se comportar desta maneira, ele vai verificar que a dor cessará. No caso em que as sensações atinjam a um nível insuportável, ele não deverá prestar atenção a elas e prosseguir com a contemplação do abdômen — “subindo” —  “descendo”.

Em alguns casos, o praticante, tão logo se verifiquem alguns progressos na prática da atenção total (Samãdhi), poderá sentir sensações de dor insuportáveis. Algumas vezes aparece uma sensação de estar engasgado ou de sendo asfixiado; noutras, haverá a sensação de estar sendo espetado por uma faca ou por um objeto afiado e pontudo, uma sensação de queimadura em todo o corpo, a sensação de estar sendo picado por agulhas de pontas muito finas, ou ainda, a sensação de ter uma porção de insetos andando por todo o corpo. Também ele poderá sentir sensações de frio intenso, picaduras, mordidas, etc. Assim que o praticante cessar a contemplação, tudo isto desaparece. Logo que ele retoma a contemplação, e fica em atenção total, (Samâdhi) elas podem voltar todas, as sensações desagradáveis. Estas sensações dolorosas não têm caráter sério, nem são qualquer forma de doença; são fatos comuns e estão sempre presentes no corpo mas, como a mente, em condições normais, se acha ocupada com assuntos de maior relevância, estas coisas se passam de uma forma obscura. Com o desenvolver da contemplação, as faculdades mentais se tornam mais profundas, o praticante fica numa posição de ter consciência destas sensações, não havendo, portanto, motivo para preocupação. O praticante deve prosseguir firmemente com a contemplação destas sensações dolorosas até que ele as supere e até que elas cessem. Assim procedendo, nenhum dano ele sofrerá. Se o praticante se intimida e vacila, parando a contemplação, ele vai reencontrá-las tão logo esteja desenvolvida a contemplação. Se, pelo contrário, ele prosseguir com a prática da contemplação, vencerá essas sensações dolorosas para sempre.

Se o praticante desejar balançar o corpo, deverá anotar — “pretendendo” — “pretendendo”, e no ato de balançar — “balançando” — “balançando”. Em certas ocasiões podera acontecer que o praticante se surpreenda balançando o corpo para direita e esquerda, mas isto não deve ser motivo de preocupação. Entretanto, ele não deve sentir nenhuma satisfação nisso e desejar que esse fato se repita. Ao mesmo tempo, ele deve saber que, se tiver a mente voltada para este balanço, o mesmo cessará automaticamente. Ele poderá anotar — “balançando” — “balançando”, de uma maneira normal e ritmada, até que cesse. Se o balanço continuar com intensidade, a despeito da nota mental, ele deve se encostar na parede, deitar-se na cama e continuar com a contemplação. Se tiver tremuras, deve proceder da mesma maneira. À medida que se desenvolve a contemplação poderão surgir, de vez em quando, estremecimentos, ou, ainda, pode aparecer um arrepio que passa pelas costas, ou mesmo pelo corpo todo. Isto nada mais é que uma sensação de interesse e de prazer (Piti) e que naturalmente, ocorre durante a contemplação, quando ela é bem feita. Quando a atenção está fixa na contemplação pode-se ser sobressaltado, ao menor som. Isto acontece porque o praticante se acha apegado a impressões sensoriais (Phassa) durante o seu estado de concentração. O praticante deve fazer uma nota mental sobre a sua intenção de mudar a posição dc seu corpo, ou das suas pernas e braços, assim procedendo em todas as fases do movimento, vagarosamente. Se aparecer sede a nota mental é “sedento” — “sedento”; se tiver a intenção de levantar-se, a nota é “pretendendo” — “pretendendo”; e até completar o ato de levantar-se, todos os movimentos nos menores detalhes devem ser acompanhados da nota — “levantando” — “levantando” até completar o movimento e poder fazer a nota — “de pé”, quando olhar para frente — “olhando” — “olhando”; quando decidir continuar a andar — “pretendendo” — “pretendendo”; quando começar a andar, a nota é ” — “andando” — “andando”, ou então “esquerda” — “direita”. Durante a caminhada é muito importante ter consciência de todos os momentos em cada passo, do princípio ao fim.

Quando o praticante está dando um passeio ou fazendo exercícios andando deve executar duas notas mentais, alternadas “levantando - baixando” — “levantando - bai xando”. A medida que ele adquirir prática suficiente deste método, uma nota mental em três partes poderá ser feita para cada passo, assim: “para cima” — “para frente” — “para baixo”.

Quando ele depara com o depósito de água, ao chegar perto, a nota é: “vendo” — “vendo”; quando parar — “parando”; quando estender a mão “estendendo”; quando tocar o copo — “tocando”; quando pegar o copo — “pegando” quando a mão mergulha o copo na água — “mergulhando”; quando a mão traz o copo à bôca — “trazendo”; quando o copo toca os lábios — “tocando”; quando ele sente o frio, ao tocar a água a sua bôca, — “frio”; ao engolir, “engolindo” — “engolindo”; quando devolver o copo — “devolvendo” — “devol vendo”; quando retirar a mão — “retirando” — “retirando”; quando deixar cair a mão “caindo” — “caindo”; quando a sua mão, ao cair, tocar o lado do corpo — “tocando” — “tocando”; quando pretende voltar “pretendendo” — “pretendendo”; quando dá a volta — “voltando” — “voltando”; quando começa a caminhar — “caminhando” — “caminhando”; chegando ao lugar onde tem a intenção de parar — “pretendendo” — “pretendendo”; quando pára — “parando” — “parando”. Se ele ficar de pé por alguns instantes, deverá continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se tiver a intenção de sentar-se — “pretendendo”; quando se dirige para o lugar onde deve sentar-se — “andando” — “andando”; quando chega ao lugar — “chegando”; quando se volta para sentar-se — “vi rando” — “virando”. Ele deve sentar-se lentamente com toda a sua atenção voltada ao movimento para baixo. Ao colocar pés e mãos na posição devem ser feitas notas mentais. Deverá continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo”.

Quando ele tem a intenção de deitar-se a nota é — “pretendendo”; todas as ações ligadas ao movimento de deitar-se devem ser contempladas com as notas: “levantando - levantando”, “distendendo - distendendo”; “recostando - recostando”; quando estiver já deitado “repousando - repousando” quando o corpo tocar o travesseiro — “tocando - tocando”. A contemplação dos movi mentos de todas as ações para colocar as mãos, as pernas e todo corpo em posição deve continuar. Todos os movimentos relativos a estas posições devem ser executados vagarosamente. Voltará, então, a contemplação do abdômen — “subindo - descendo”. Se sentir qualquer sensação, deverá fazer a nota mental correspondente, como já foi explicado anteriormente. A contemplação de todas as ações já descritas, ou de quaisquer outras, poderá ser feita da mesma maneira que se faz na postura sentada. No caso em que não haja nenhuma nota mental a fazer, o praticante deve voltar a contemplação “subindo” — “descendo”; se sentir sono a nota é “sonolento” — “sonolento”. Quando o praticante adquire a concentração suficiente na contemplação, verificará que a sonolência desaparece e ele vai sentir­se bem. Deve, então voltar a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se acontecer que ele não possa vencer a sonolência, deverá continuar com a sua contemplação até adormecer.

O sono nada mais e do que a continuação do estado de subconsciência (Bhavanga). É semelhante ao primeiro estado de renascimento da consciência e ao último estado de consciência no momento da morte. Este estado de consciência é fraco e não tem capacidade para reconhecer qualquer objeto. Durante o estado de vigília, este estado de subconsciência (Bhavanga) ocorre, regularmente, nos espaços de tempo entre: ver, ouvir, pensar, etc. Como estes estados de subconsciência (Bhavanga) têm breve duração, não são claros e geralmente passam despercebidos. Este estado de subconsciência (Bhavanga) se prolonga durante o sono; eis por que, durante o sono, não se pode praticar a contemplação.

Ao acordar, o praticante deve iniciar, imediatamente, a contemplaçao com a nota mental — “despertando” — “despertando”. Para o principiante, talvez não seja possível começar no primeiro momento após o despertar, contudo ele deve dar início tão logo lhe venha à lembrança a prática da contemplação. Por exemplo, se ele começar a refletir sobre qualquer assunto, dará início à contemplação, com a nota — “refletindo” — “refletindo”. Em seguida, dará continuidade a contemplação — “subindo” — “descendo”. Todos os movimentos do corpo, ou seja, virar-se, inclinar-se, espreguiçar-se, etc. devem ser contemplados. Se o pensanento a respeito da hora vier à mente, a nota será — “pensando” — “pensando”; se tiver a intenção de levantar-se, a nota será — “pretendendo” — “pretendendo”; quando se preparar para levantar — “preparando” — “preparando”; quando começar lentamente o movimento de levantar — “levantando” — “levantando”; quando voltar a posição sentada — “sentando” — “sentando”;  se permanecer na posição sentada deverá continuar a contemplação — “subindo” — “descendo”.

Quando o praticante estiver lavando o rosto ou tomando banho deve praticar a contemplação de todos os movimentos correspondentes a todas as ações na sua ordem, tais como: “olhando” — “pegando” — “mergulhando” — “derramando água” — “sentindo frio” — “esfregando”, etc. Enquanto estiver se vestindo, ou arrumando a cama, fechando ou abrindo a porta, pegando ou largando qualquer coisa, deve estar completamente empenhado na contemplação de todos os pormenores destas ações. Tarnbém deve estar muito atento na contemplação na hora da refeição, começando com a nota — “vendo”; ao arrumar a refeição no prato — “arrumando” — “arrumando”; quando traz o alimento à boca — “trazendo”; quando inclina a cabeça — “inclinando”; quando o alimento toca os lábios — “tocando”; quando coloca o alimento na boca — “colocando”; quando fecha a boca — “fechando”; quando retira suas mãos — “retirando”; quando as suas mãos tocam o prato — “tocando”; quando estica o pescoço — “esticando” — “esticando”; quando mastiga — “mastigando” — “mastigando”; quando sente o gosto do alimento — “provando” — “provando”; quando engole o alimento ” — “engolindo” — “engolindo”; quando o alimento toca os lados da garganta — “tocando” — “tocando”. Assim, deverá continuar a contemplação durante a refeição, até o seu final. No começo da prática haverá muitas omissões mas o praticante deve continuar sem desânimo. A medida que a prática se desenvolve haverá um menor número de omissões. Com a continuação da prática o praticante ficará capacitado a perceber ainda maiores detalhes do que foi aqui mencionado.
 
 

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PROGRESSOS NA CONTEMPLAÇÃO
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Depois de um dia e uma noite de prática, o discípulo verificará que um considerável progresso foi feito; assim, poderá prosseguir com a observaço dos movimentos do abdômen — “subindo” — “descendo”. Ele irá observar que há uma lacuna entre os movimentos — “subindo” e “descendo”. Se se achar na postura sentada poderá preencher a lacuna com a nota mental — “sentindo” — “descendo” — “sentindo” — “sentindo” — “subindo” — “sentindo”... Enquanto for feita a nota mental “sentindo” deve manter a sua mente na posição ereta de seu corpo. Se se encontrar na postura deitada, deverá proceder assim — “deitado” — “subindo” — “descendo” — “deitado” — “subindo” — “descendo” — “deitado”. Se ainda houver facilidade de fazer uma nota mental em três etapas e, se se verificar uma lacuna no fim da nota “levantando”, bem como no fim da nota “descendo”, poderão ser feitas as seguintes notas: “levantando” — “sentindo” (ou deitado) , — “descendo” — “sentindo” (ou deitado). Tão logo apareça alguma dificuldade em fazer uma nota em três ou quatro etapas, o praticante deve voltar a nota em duas etapas — “subindo” — “descendo”.
Enquanto o praticante se acha empenha do no seu modo usual de contemplação, qualquer movimento do seu corpo ou qualquer objeto que ele veja, ou qualquer som que ele ouça, não devem preocupá-lo de modo algum. Desde que a mente fique atenta aos movimentos — “subindo” — “descendo”, fica bem claro que ela também está atenta para ver e ouvir, mas se o praticante olhar deliberadamente para um objeto deverá fazer, duas ou três vezes, a nota — “vendo”, e logo em seguida, continuar com a contemplação “subindo” — “descendo”. Se qualquer pessoa, do sexo feminino ou masculino, aparecer, a nota será — “vendo”, duas ou três vezes. Em seguida, voltar a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se ouvir alguma voz a nota será, duas ou três vezes — “ouvindo’’ e voltar a primitiva contemplação — “subindo” — “descendo”. Se ocorrer barulho de vozes muito altas, latidos de cão, cantos, etc., a nota mental a ser feita duas ou três vezes e — “ouvindo”. Logo após, voltar a contemplação do abdômen — “subindo” — “descendo”. Se não for possivel contemplar visões ou vozes, poderá acontecer que o praticante se perca em reflexões a respeito dessas coisas, ao invés de continuar com a contemplação — “subindo” — “descendo” intensamente e, nessas condições, a contemplação se tornará menos distinta e menos clara. Desta maneira, os vícios da mente (Kilesas) são estimulados e difundidos. Se reflexoes desta natureza ocorrem, a meta mental será — “refletindo”, duas ou três vezes e voltar a contemplação. Se ocorrer alguma omissão da nota mental em relação a qualquer movimento a nota será — “esquecendo”, e, em seguida voltar à contemplação usual. Algumas vezes poderá parecer que a respiração enfraqueceu e que os movimentos — “subindo” — “descendo” são fracos e não bem definidos. Nestes casos, na postura deitada, a nota será — “jazendo” — “tocando” e, na postura sentada, a nota será ” — “sentando” — “tocando”. Durante a contemplação — “tocando” — a mente não deve ficar presa a um só lugar, mas em diferentes lugares, pelo menos em seis ou sete, sucessivamente.
 
 

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LIÇÃO IV
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Depois de algum tempo de treinamento, o praticante poderá sentir preguiça por não sentir nenhum progresso real no seu trabalho então a nota será: — “preguiçoso” — “preguiçoso”. Antes que o praticante adquira a capacidade na atenção total (Sati), a agudeza da mente (Samãdhi) e a introspeção (Nãna) poderá cair em dúvida sobre o acerto do método de treinamento e sua utilidade. Nestes casos, a nota mental será — “duvidando” — “duvidando”. Nas ocasiões em que o praticante espera bons resultados, deve prosseguir com a contemplação e a nota será ” — “esperando” — “desejando”. Algumas vezes ocorrera o pensamento de como o praticante vem desenvolvendo o seu treinamento e nestes casos a nota será — “lembrando” — “pensando”. De vez em quando, ele se empenhará examinando qual é o objeto da contemplação,
se a matéria (Rupa) ou a mente (Nãna), e então a nota mental será “examinando” — “examinando”. Haverá momentos em que o praticante se sentirá triste porque não vê nenhum progresso em sua contemplação, então, a nota mental será “triste” — “triste”. De outra feita, sentir-se-á feliz, porque pensa que está fazendo progressos na sua contemplação, e, neste caso, a nota mental será “feliz”. Desta maneira, deverá ser feita uma nota mental para cada momento que ocorra e voltar sempre para a contemplação habitual — “subindo” — “descendo”.
O período da contemplação transcorre do mo mento em que o praticante acorda até ao momento que adormece. Desta forma, o praticante se mantém incessantemente ocupado com a contemplação, através do dia e da noite. Não deve haver a perda de um segundo sequer. Com o decorrer da prática o discípulo não se sentirá sonolento e será capaz de praticar a contemplação dia e noite.

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SUMÁRIO DAS LIÇÕES

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O praticante deve contemplar todos os momentos mentais tão logo ocorram, sejam eles bons ou maus. Todos os movimentos do corpo, mesmo os menores, devem ser contemplados. Todas as sensações, agradáveis e desagradáveis, devem ser contempladas. Todos os objetos mentais ou impressões devem ser contemplados. Se não surgir nenhum motivo especial o discípulo deve prosseguir com a contemplação — “subindo” — “descendo”. Se houver necessidade de executar qualquer tarefa, o praticante deve contemplar cada passo com a nota — “caminhando” — “caminhando” — ou então, “esquerda” — “direita”. Quando se achar em exercício, o praticante deve contemplar cada passo com urna nota mental em três etapas — “para cima” — “para frente” — “para baixo”. O praticante que se empenhar na contemplação dia e noite, ficará habilitado a desenvolver a sua concentração para alcançar o ambicionado estado inicial dos quatro estágios da introspecção (UDAYABAYA NÃNA) dentro de um tempo relativamente curto.